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O patriarcado

Julho 17, 2011

 

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Numa sociedade do tipo patriarcal, as funções e a noção de identidade de cada um dos sexos define-se de forma distinta e oposta. As posições de poder, privilégios e autoridade pertencem aos elementos masculinos, tanto a nível familiar como ao nível mais lato da sociedade. A padronização das relações entre sexos garante a continuidade e estabilidade a este sistema social, cujas valores e correspondente mentalidade dominante interpretam diferenças biológicas em termos de capacidades, interesses legítimos e até valor humano.[1]

Foi nos anos sessenta que as feministas radicais emergiram e identificaram o patriarcado como a causa universal da dominação das mulheres. E a dominação masculina como a mais ampla e fundamental forma de opressão humana.[2]  […]

Uma mulher que atribuiu a opressão feminina a motivos não exclusivamente económicos e políticos, foi Anna Maria Mozzoni e por isso mesmo receava que com uma revolução social as mulheres continuassem subordinadas. Ao contrário de Anna Kulischoff que defendia que a liberdade da mulher dependia da supressão da propriedade privada e portanto de uma transformação radical política e social.[3] Duas alas do movimento feminista da primeira vaga, representadas por duas mulheres, ambas de esquerda. […]

Para Sylvia Walby o patriarcado é «um sistema de estruturas e práticas sociais onde os homens dominam, oprimem e exploram as mulheres». No entanto, observa a ocorrência de mudanças ao longo da história e a possibilidade de haver diferenças ao nível das etnias e classes sociais. Walby, entende o patriarcado e o capitalismo como dois sistemas distintos que interagem de maneiras diferentes – ora de forma harmoniosa, ora sob tensão – conforme as circunstâncias históricas. De uma forma geral, o capitalismo, afirma, beneficiou do patriarcado através da divisão sexual do trabalho. Mas houve alturas em que o capitalismo e o patriarcado entraram em conflito. [4] Durante a I Grande Guerra, por exemplo, quando as mulheres entraram no mercado de trabalho em massa, os interesses do capitalismo e do patriarcado não estavam alinhados.

As discriminações sobre as mulheres surgem não apenas na sua relação com o sistema económico, mas com o sistema de uma dominação masculina hegemó­nica. Não se trata de dar primazia ao género ou à classe social, mas entrelaçar estes eixos de dominação entre si e com outros, considerados esquecidos pela própria corrente socialista-marxista do feminismo, a etnia e a orientação sexual. [5] 

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[1] Macedo, Ana e Amaral, Ana Luísa – Dicionário da Crítica Feminista, Porto, Edições Afrontamento, 2005, p.145

[2] Gardner, Catherine Villanueva – Historical Dictionary of Feminist Philosophy, , Oxford, Scarecrow Press, 2006, p.185

[3] Barradas, Ana – Dicionário de Mulheres Rebeldes, Ela por Ela, 2006, Lisboa. P. 33

[4] Giddens, Anthony – Sociologia, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2010, p. 118

[5]Tavares, Manuela; Matthee, Deidré; Magalhães, Maria josé – “Feminismo(s) e Marxismo: um casamento “mal sucedido”?  Os novos desafios para uma corrente política de esquerda dos feminismos” in Vírus Janeiro/Fevereiro 2009, Dossier Congresso Karl Marx, pp. 23-34, Acessível em: http://www.esquerda.net/virus/media/05virus feminismos.pdf

Ana Mateus