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Esta joia da arquitectura popular

Maio 9, 2011

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Então, como não os deixam consertar os palheiros, como não podem viver na rua e como não têm dinheiro para as construções exigidas, aceitam, da Câmara de Mira, em troca do pequeno chão e das ruínas das casas, um pedaço de terra, sempre maior, situado a norte do medo grande. Este lugar, aberto para norte e separado da praia apenas por um cordão de dunas, é varrido pelas areias impelidas pelo ventos mareiros e pelas nortadas dominantes.

Se os autores do plano de urbanização se tivessem dado ao cuidado de observar a povoação espontânea e nela permanecessem tempo bastante para apanharem um dia de temporal, veriam quanto o abrigo do medo foi essencial para a localização do lugar e não teriam cometido o absurdo de colocarem a população de residência permanente no sector mais desabrigado que nesta área se poderia encontrar. Aí vão construir casas insípidas de tijolos e de cimento com plantas quase sempre iguais para servir a mesma, e ficar, portanto, mais barata.

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A pitoresca aglomeração de pescadores que ainda é hoje Palheiros de Mira desaparecerá brevemente. No seu lugar levantar-se-ão banais blocos de cimento de dois e mais andares e moradias de veraneantes, a maior parte das vezes de péssimo gosto. A elas se sacrificam a população permanente, isto é, o elemento produtivo desta aglomeração, quando seria razoável deixar os pescadores no lugar escolhido pelos seus antepassados e planear um estabelecimento temporário de veraneantes em qualquer outro sítio do imenso areal despovoado.

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Tudo isso se poderia fazer sem sacrificar uma população de gente de trabalho aí enraizada há um século, em benefício de futuros veraneantes endinheirados.

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Raquel Soeiro de Brito

Palheiros de Mira: Formação e Declínio de um Aglomerado de Pescadores

1960

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