Aus-Rotten: The Second Rape

Janeiro 23, 2012

O patriarcado

Julho 17, 2011

 

[…]

Numa sociedade do tipo patriarcal, as funções e a noção de identidade de cada um dos sexos define-se de forma distinta e oposta. As posições de poder, privilégios e autoridade pertencem aos elementos masculinos, tanto a nível familiar como ao nível mais lato da sociedade. A padronização das relações entre sexos garante a continuidade e estabilidade a este sistema social, cujas valores e correspondente mentalidade dominante interpretam diferenças biológicas em termos de capacidades, interesses legítimos e até valor humano.[1]

Foi nos anos sessenta que as feministas radicais emergiram e identificaram o patriarcado como a causa universal da dominação das mulheres. E a dominação masculina como a mais ampla e fundamental forma de opressão humana.[2]  […]

Uma mulher que atribuiu a opressão feminina a motivos não exclusivamente económicos e políticos, foi Anna Maria Mozzoni e por isso mesmo receava que com uma revolução social as mulheres continuassem subordinadas. Ao contrário de Anna Kulischoff que defendia que a liberdade da mulher dependia da supressão da propriedade privada e portanto de uma transformação radical política e social.[3] Duas alas do movimento feminista da primeira vaga, representadas por duas mulheres, ambas de esquerda. […]

Para Sylvia Walby o patriarcado é «um sistema de estruturas e práticas sociais onde os homens dominam, oprimem e exploram as mulheres». No entanto, observa a ocorrência de mudanças ao longo da história e a possibilidade de haver diferenças ao nível das etnias e classes sociais. Walby, entende o patriarcado e o capitalismo como dois sistemas distintos que interagem de maneiras diferentes – ora de forma harmoniosa, ora sob tensão – conforme as circunstâncias históricas. De uma forma geral, o capitalismo, afirma, beneficiou do patriarcado através da divisão sexual do trabalho. Mas houve alturas em que o capitalismo e o patriarcado entraram em conflito. [4] Durante a I Grande Guerra, por exemplo, quando as mulheres entraram no mercado de trabalho em massa, os interesses do capitalismo e do patriarcado não estavam alinhados.

As discriminações sobre as mulheres surgem não apenas na sua relação com o sistema económico, mas com o sistema de uma dominação masculina hegemó­nica. Não se trata de dar primazia ao género ou à classe social, mas entrelaçar estes eixos de dominação entre si e com outros, considerados esquecidos pela própria corrente socialista-marxista do feminismo, a etnia e a orientação sexual. [5] 

[…]

[1] Macedo, Ana e Amaral, Ana Luísa – Dicionário da Crítica Feminista, Porto, Edições Afrontamento, 2005, p.145

[2] Gardner, Catherine Villanueva – Historical Dictionary of Feminist Philosophy, , Oxford, Scarecrow Press, 2006, p.185

[3] Barradas, Ana – Dicionário de Mulheres Rebeldes, Ela por Ela, 2006, Lisboa. P. 33

[4] Giddens, Anthony – Sociologia, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2010, p. 118

[5]Tavares, Manuela; Matthee, Deidré; Magalhães, Maria josé – “Feminismo(s) e Marxismo: um casamento “mal sucedido”?  Os novos desafios para uma corrente política de esquerda dos feminismos” in Vírus Janeiro/Fevereiro 2009, Dossier Congresso Karl Marx, pp. 23-34, Acessível em: http://www.esquerda.net/virus/media/05virus feminismos.pdf

Ana Mateus

♥ Zoe Leonard ♥

Julho 14, 2011

– [ They offer wood and food: fire, building material, fruit. They are beauty. ] :

“Can you tell us a bit about the use of the tree in your work?

Trees show up in my work over and over again. I think I use them so much because they are such an essential symbol. Trees represent home, shelter, the seasons, change and stability, life and endurance. They offer wood and food: fire, building material, fruit. They are beauty. They occur as religious symbols–representing the connection between earth and sky, as signs of both abundance and longevity. They reflect seasonal changes clearly and dramatically. They indicate water sources and survival zones, marking oases in the desert, and timberline in the mountains. Although trees are much larger than we are, they sort of set the scale for us–we rest beneath them, cultivate them in orchards. Our language reflects our relationship with trees and forests. We speak of having roots, of bearing fruit, of family trees.

From: an interview with Zoe Leonard.

– [ Analogue photography has entertained a very special relationship to the world and its objects. ] :

“In her photographic works, Zoe Leonard investigates current cultural themes like gender roles, globalization, and our relationship to nature and history. At the same time, however, the American art photographer, whose works are part of the Deutsche Bank Collection, reflects upon the medium’s various different roles. ”

In Deutsche Bank Art Mag.

– [ Photographs as documents ] :

“Not only journalism but the other roles that photography has played outside of the art context: aerial reconnaissance photography, science and medical photography, family snapshots. All the ways in which human beings have documented the world in an attempt to order it, in an attempt to consume it or rule it or hang on to it in some sense. […]

I’m reframing. Asking people to take a second look. Not just the objects themselves but how they are displayed.[…]

I wanted to make something positive and strong. The museum made me uncomfortable, and I wanted to get at that. See if there was a way I could change it. As a kid, I wanted to be Van Gogh. But sometimes at the Met, I would want to be one of the beautiful women in the paintings. I was torn. Do I want to be Picasso or do I want to be one of these beautiful women. Which is more satisfying? Do I even have that choice? I used to leaf through this one book of Man Ray photographs in a virtual stupor over Meret Oppenheim and Lee Miller. Of course, at the time I had no idea that both of these women were artists. Similarly, at the fashion shows, I watch the models. I desire them, I envy their beauty, I pity their objectification and I am disgusted by the whole ritual — simultaneously and in equal measure.”

In Journal of  contemporary art.

Landscape Control

Julho 14, 2011

Por sugestão do “índice de recursos on e off line sobre fotografia contemporânea, […] organizada por Cláudia Cardoso e Inês Abreu e Silva” disponível em lejournaldelamaison.com.pt > Paisagens/Topogr. :

– Edward Burtynsky :

“Nature transformed through industry is a predominant theme in my work. I set course to intersect with a contemporary view of the great ages of man; from stone, to minerals, oil, transportation, silicon, and so on. To make these ideas visible I search for subjects that are rich in detail and scale yet open in their meaning. Recycling yards, mine tailings, quarries and refineries are all places that are outside of our normal experience, yet we partake of their output on a daily basis.

These images are meant as metaphors to the dilemma of our modern existence; they search for a dialogue between attraction and repulsion, seduction and fear. We are drawn by desire – a chance at good living, yet we are consciously or unconsciously aware that the world is suffering for our success. Our dependence on nature to provide the materials for our consumption and our concern for the health of our planet sets us into an uneasy contradiction. For me, these images function as reflecting pools of our times.”

edwardburtynsky.com

– David Maisel :

“David Maisel’s large-scaled, otherworldly photographs chronicle the complex relationships between natural systems and human intervention, piecing together the fractured logic that informs them both.”

davidmaisel.com

 

Silent Spring

Julho 7, 2011

“A emergência de um consciência pública ecológica ao longo das décadas de 1950, 1960 e 1970 está relacionada com a crescente industrialização e consequente degradação dos ecossistemas. Em 1962, foi publicado o livro Silent Spring da bióloga norte-americana Rachel Carson considerado a principal fonte de inspiração do movimento ambientalista. Rachel documenta os efeitos dos pesticidas no ambiente, em particular nas aves e nos humanos. O livro tinha uma mensagem simples mas com enorme poder: a espécie humana e a natureza fazem parte de uma só realidade e aqueles que afirmam a possibilidade de separação e dominação defendem uma aventura sem sentido e destrutiva que acontece em nome da racionalidade científica e económica. Esta mensagem veio de uma mulher que também era cientista, o que foi utilizado como argumento para defender o monopólio masculino da racionalidade. Rachel Carson foi acusada de ser uma mulher histérica, cujas observações sobre os perigos dos pesticidas na saúde humana e do ambiente não tinham fiabilidade. [1] Quando em 1972 o DDT, um pesticida pouco dispendioso e altamente eficiente, foi proibido nos Estados Unidos da América em virtude de Rachel ter demonstrado os seus efeitos prejudiciais para a saúde humana,[2] tornou-se imperioso teorizar a questão do género na sua relação com a produção científica e com a degradação do meio ambiente.”


[1] Barca, Stefania – “Scienza, genere e storia” in Contemporanea / a. XI, n. 2, Aprile 2008: pp 333-342. Acessível em: http://www.ces.uc.pt/myces/UserFiles/livros/648_Scienza,%20genere%20e%20storia%20ambientale.pdf

[2] S.A. – http://pt.wikipedia.org/wiki/DDT – Último acesso em 10/06/2011

Ecofeminismo

Ana Mateus

A propósito do livro Silent Spring realizar-se-á um ciclo de conferências na  Gulbenkien  subordinado ao tema: Ambiente. Porquê ler os clássicos?

Ecofeminismo

Julho 4, 2011


As ecofeministas estabeleceram a relação entre o «domínio sobre as mulheres», que prevalece nas sociedades patriarcais, e o «domínio sobre a natureza», moldado desde o século XVI pela «ordem científica hegemónica». […]

No modelo de desenvolvimento Ocidental, moldado desde o século XVI pela revolução científica, é dominante a noção de que a cultura é superior à natureza que reclama «dominar e civilizar». Este modelo de desenvolvimento incrementou-se numa sociedade do tipo patriarcal que considera o homem superior à mulher. Os distintos contextos históricos revestem estas noções de características específicas e sempre em mutação, não obstante destes factores temporais e espaciais, a cultura foi associada ao masculino, o elemento racional, e a natureza ao feminino, o caos. A construção das identidades faz-se de forma uniformizadora, dualista e hierárquica; ao homem é atribuído o papel de sujeito activo e à mulher o de objecto passivo. […]

Mais do que tentar superar esta dicotomia hierárquica, muitas mulheres, pura e simplesmente, enfrentaram-na e assim, as mulheres são consideradas superiores aos homens, a natureza à cultura, etc. Mas a estrutura básica da visão do mundo permanece, bem como a relação basicamente antagonista que existe, à superfície, entre as duas partes divididas e ordenadas hierarquicamente. Dado que esta visão do mundo considera o «outro», o «objecto» não apenas diferente, mas o «inimigo»; como afirma Sartre no seu Huis Clo: o Inferno são os outros! Na luta daí resultante, uma parte irá finalmente sobreviver, subordinando e apropriando-se da «outra». [1] […]

Segundo, o Dicionário de Crítica Feminista, existem três elementos presentes nas definições parciais de ecofeminismo: a consciência da repressão exercida sobre as mulheres e sobre a natureza; ser um movimento activista que inicia e apoia estratégias para a sua libertação conjunta; e estar empenhado numa análise (crítica) da dimensão desta repressão bem como da razão de ser da sua ligação com o activismo.[2][…]

A destruição da natureza, a base do sistema global onde vivemos, aproxima-se do ponto de não retorno. Construir conhecimento segundo uma postura epistemológica ecofeminista significa contribuir com o estudo das variáveis que moldam os eixos de dominação para apurar de que forma essas variáveis se inter-relacionam e como, quando, onde, porquê, constituem eixos de dominação.[…]

A emergência subversiva das mulheres no espaço «guerreiro» e «hiper-machista», é uma tentativa de nos aproximarmos de nós mesmos enquanto seres humanos. Valerie Solanas descreve este processo de forma visceral ao conceber “o abandono do poder masculino, de todo o poder sobre outrem”[3]. Ela impele-nos a agir.

[1] Mies, Maria e Shiva, Vandana – Ecofeminismo, Lisboa, Instituto Piaget, 1997, p. 14 e segs

[2] Macedo, Ana Gabriela e Amaral, Ana Luísa -Dicionário da crítica Feminista , Porto, Edições Afrontamento, 2005, p.47

[3] Solanas, Valerie – Manifesto da SCUM, Lisboa, Fenda Edições, 2001, p.45

Ana Mateus

Burqa Band

Julho 4, 2011

All-female band from Kabul Afghanistan.

No Comment

Maio 13, 2011

Esta joia da arquitectura popular

Maio 9, 2011

[…]

Então, como não os deixam consertar os palheiros, como não podem viver na rua e como não têm dinheiro para as construções exigidas, aceitam, da Câmara de Mira, em troca do pequeno chão e das ruínas das casas, um pedaço de terra, sempre maior, situado a norte do medo grande. Este lugar, aberto para norte e separado da praia apenas por um cordão de dunas, é varrido pelas areias impelidas pelo ventos mareiros e pelas nortadas dominantes.

Se os autores do plano de urbanização se tivessem dado ao cuidado de observar a povoação espontânea e nela permanecessem tempo bastante para apanharem um dia de temporal, veriam quanto o abrigo do medo foi essencial para a localização do lugar e não teriam cometido o absurdo de colocarem a população de residência permanente no sector mais desabrigado que nesta área se poderia encontrar. Aí vão construir casas insípidas de tijolos e de cimento com plantas quase sempre iguais para servir a mesma, e ficar, portanto, mais barata.

[…]

A pitoresca aglomeração de pescadores que ainda é hoje Palheiros de Mira desaparecerá brevemente. No seu lugar levantar-se-ão banais blocos de cimento de dois e mais andares e moradias de veraneantes, a maior parte das vezes de péssimo gosto. A elas se sacrificam a população permanente, isto é, o elemento produtivo desta aglomeração, quando seria razoável deixar os pescadores no lugar escolhido pelos seus antepassados e planear um estabelecimento temporário de veraneantes em qualquer outro sítio do imenso areal despovoado.

[…]

Tudo isso se poderia fazer sem sacrificar uma população de gente de trabalho aí enraizada há um século, em benefício de futuros veraneantes endinheirados.

[…]

Raquel Soeiro de Brito

Palheiros de Mira: Formação e Declínio de um Aglomerado de Pescadores

1960

Um cavalo verdadeiro

Maio 9, 2011

Trotsky e Estaline –  A Luta pelo Poder.

[…]

Enquanto esteve preso na Sibéria, Bronstein dedicou-se a estudar a obra de Karl Marx e apurou o seu sentido crítico escrevendo para os jornais locais. Cedo se destacou pela sua «escrita cuidada». E revelava um faceta da sua personalidade que iria marcar o seu futuro político. “Apesar de criticar John Ruskin pelas suas «confusões reaccionário-românticas», admitia que as máquinas de uma sociedade industrial tinham o seu lado negro. Os marxistas não admitiam esse tipo de coisas de ânimo leve, mas Bronstein acrescentou que preferia o prazer de montar um «cavalo verdadeiro». Ter um pensamento próprio era uma questão de orgulho para ele.“ [1] Essa sua característica aproximava-o “mais do intelectual do que do duro combatente maximalista”.[2]

[…]

[1] Service, Robert – Trotsky, Alêtheia Editores, 2011, P. 104

[2] Bebiano, Rui – O homem por detrás do ícone, http://ruibebiano.net/?p=855, Acedido a 11 de Março de 2011.

Ana Mateus